"O conhecimento era a única moeda que nínguem conseguia questionar." , afirma Deise da Roza

Foto: Acervo pessoal
Aos 16 anos, Deise da Roza Oliveira já sabia o que queria. E sabia, também, que teria que correr atrás de um jeito próprio de conseguir. No programa Show do Esporte, da Band TV, ela era a mais jovem. Ao redor, profissionais que construíram a história do jornalismo esportivo brasileiro: Luciano do Valle, Silvio Luiz, Roberto Cabrini, Flávio Prado, Álvaro José. Ela ainda estava no ensino médio. E em vez de se intimidar, observava. Esperava os papéis serem descartados, os recolhia do lixo e os levava para casa — para estudar como eram os textos, como se escrevia para a TV.
Quando foi para a Rede Record, já como profissional, o nível de exigência subiu — e ela subiu junto. Aprender sobre técnica televisiva era o mínimo. Era preciso dominar os esportes em profundidade, história, regras, atletas, jogadores. Num ambiente onde, nas décadas de 80 e 90, o consenso não dito era o de que mulher não tinha como entender de futebol, o conhecimento era a única moeda que ninguém conseguia questionar.
"Nós respiramos o evento 24 horas por dia"
Estar numa Copa do Mundo ou numa Olimpíada não é apenas uma cobertura. É uma realidade paralela — onde o trabalho consome as 24 horas do dia e onde o simples fato de ter sido escolhida para estar ali significa, nas palavras de Deise, uma espécie de capa de autoridade.
Ela esteve na Copa de 1998 e de 2006, nas Olimpíadas de 1996 e de 2012, nos Pan-Americanos de 2007. Em cada um desses eventos, o ambiente era diferente do cotidiano das redações. Colegas de outras emissoras, de outros países, atletas e fontes — todos operando num ritmo de respeito mútuo que o tamanho do evento impunha.
"Nós respiramos o evento 24 horas por dia."
O machismo que Deise enfrentou ao longo da carreira raramente veio de onde se esperaria. Os grandes nomes, os jornalistas de carreiras longas e sólidas com quem trabalhou durante décadas, nunca foram os que tentaram descredibilizá-la. Vieram dos bastidores — pessoas do cotidiano, da sua idade ou mais jovens.
Ela sofreu assédio mais de uma vez e viu outras mulheres serem desrespeitadas. Como ocupou cargos de chefia durante grande parte da carreira, enfrentou também o questionamento constante sobre sua autoridade — aquele tipo de resistência que não precisa se declarar para existir.
A estratégia que desenvolveu foi construída no silêncio e no esforço: nunca demonstrar insegurança, não chorar na frente de ninguém, aprender antes dos outros, trabalhar muito além do que era exigido, não reclamar de escala nem de horário. Uma armadura montada peça por peça, ao longo de anos."Sempre tive que me manter como uma fortaleza quando, por dentro, muitas vezes estava destruída."
"Não abram mão de um sonho em função de outro"
Há um custo que raramente aparece nas trajetórias de sucesso. Deise fala dele com a serenidade de quem já passou pelo luto e decidiu ser honesta sobre o que encontrou do outro lado.
A dedicação total à carreira ocupou o espaço que poderia ter sido de outras coisas. Os relacionamentos longos — de 8, 12 anos — que não chegaram ao casamento. A maternidade sempre adiada com o mesmo pensamento: depois da próxima Copa, da próxima Olimpíada, da próxima cobertura. Até que o relógio biológico não esperou mais.
"A dedicação total nem sempre é reconhecida. Depois de mais de trinta anos, você pode ter que lidar com a realidade de que se tornou apenas uma peça substituível. E fora da área, você se sente descartável. É muito triste."
Entre dezenas de coberturas e transmissões históricas, dois momentos pessoais guardam um peso diferente — e os dois têm pouco a ver com jornalismo e muito a ver com o que o jornalismo permitiu que ela fizesse.
O primeiro foi levar seu pai, flamenguista e doente, ao programa num dia em que Zico seria o entrevistado. Conseguir que os dois se encontrassem, que seu pai trocasse palavras com o maior ídolo da vida dele — isso ela chama até hoje de sua maior conquista profissional.
O segundo aconteceu na Suíça, depois de um treino da Seleção Brasileira. Deise nasceu em Nilópolis, no Rio de Janeiro. E ali, no meio dos Alpes Suíços, encontrou o Neguinho da Beija-Flor. Dois nilopolitanos do outro lado do mundo. Ela se apresentou. Ele respondeu: "caramba, e viemos nos conhecer aqui."
"Foi um momento mágico. Eu me senti uma pessoa mais do que especial." São esses momentos que explicam por que ela ficou. Por que aguentou. Por que, se pudesse, faria tudo de novo.
Hoje, na FAPCOM, ela está do outro lado — não mais nos bastidores das grandes coberturas, mas diante das mulheres que vão ocupar os espaços que ela ajudou a abrir. E olha para elas com o orgulho específico de quem sabe o que custou chegar até aqui.
Para as alunas que ela vê toda semana em sala de aula — as que têm a mesma chama que ela tinha aos 16 anos, a mensagem vai além do jornalismo.
"Não abram mão de um sonho em função de outro."
"Espero que todas aproveitem cada minuto, respeitem a si próprias e às demais, e que sejam muito felizes em suas escolhas. O jornalismo esportivo foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Espero que seja na delas também."