"Eu estava convivendo com pessoas já consolidadas na profissão, e sem estar formada estava sendo tratada da mesma forma." , afirma Giovanna Lameiras

Giovanna Lameiras tem 22 anos, está no oitavo semestre de Jornalismo e já sabe o que é estar na quadra depois do apito final, com crachá, câmera na mão e o mesmo espaço que os profissionais consolidados.
Estagiou dois anos na Secretaria Municipal de Esportes de São Paulo, onde cobriu eventos, produziu conteúdo para redes sociais e aprendeu na prática o que a sala de aula ainda estava ensinando na teoria. Ainda está no começo. Mas o começo já tem muita história.
Foto: Acervo pessoal

Depois do apito final de alguns campeonatos: Copinhas feminina e masculina, SuperLiga de vôlei, Giovanna estava lá dentro.
Na quadra, no campo, misturada aos fotógrafos, registrando premiações, medalhas, times. O crachá dizia o nome e a função. Não dizia estagiária.
"Eu estava convivendo com pessoas já consolidadas na profissão, e eu estava lá sem estar formada e sendo tratada da mesma forma."
Esse sentimento de pertencimento, de legitimidade, de estar no lugar certo, é o que ela guarda com mais força desses dois anos. E é também o que ampliou o horizonte do que ela quer para a carreira. Quando entrou na faculdade, o mundo profissional dela cabia inteiro dentro do futebol. A Secretaria abriu outras janelas.
Foto: Acervo pessoal
"A experiência de atuar à beira do campo tem se tornado cada vez mais significativa, reforçando a importância da prática no crescimento profissional. Ao trabalhar ao lado de profissionais experientes, cresce também o desejo de viver mais momentos como esse na carreira."
relata Giovanna em publicação no Linkedin
Duas gerações, dois pontos de partida, um desejo em comum
Giovanna Lameiras ainda está no oitavo semestre e Gabriela Lira já passou por Copas do Mundo, Olimpíadas e chegou à Kings League. O caminho de uma está começando onde o da outra já acumulou cicatrizes. Mas quando o assunto é o futuro do jornalismo esportivo feminino, as duas falam a partir do mesmo lugar, o de quem esteve num espaço que não foi construído para elas e, mesmo assim, ficou.
Giovanna sabe que o meio funciona muito por indicação. Ela mesma entrou assim, e reconhece que, se saísse agora e quisesse voltar, a trajetória ajudaria mas uma indicação ainda pesaria mais. Isso incomoda. "Gostaria que o meio do esporte fosse mais sobre capacidade do que indicação."
O desejo é simples na forma e profundo no que denuncia: um campo onde o talento ainda precisa de um empurrão de quem já chegou antes, e onde esse empurrão nem sempre chega para todo mundo da mesma forma.
Gabriela, que já chegou antes, olha para o futuro com uma preocupação diferente, mas igualmente estrutural. Ela observa a chegada em massa de influenciadores ao jornalismo esportivo e não esconde o incômodo com o que pode se perder nesse processo. "Ao mesmo tempo que é legal você gravar as suas coisas e poder ser visto e abrir muitas portas, eu acho que também perde um pouco das coisas básicas do jornalismo, como imparcialidade, pesquisa, fontes, uma parte mais ética do jornalismo."
Não é resistência ao novo. É cuidado com o que não pode ser abandonado. E há, nas duas, um desejo que transcende a carreira individual. Giovanna quer ver sua geração ocupar mais espaço, mais mulheres em postos de decisão, de cobertura, de comando.
Gabriela quer algo parecido, dito de outro jeito: "Espero que um dia a gente não precise mais falar tanto sobre a dificuldade das mulheres no jornalismo esportivo. Que um dia a gente consiga passar por isso e fale disso como algo passado."
A palavra carrega um peso enorme quando dita por quem ainda vive isso no presente. Por enquanto, o trabalho continua, tanto para Giovanna, que ainda está construindo, tanto para Gabriela, queconstroi diariariamente e aprende cada vez mais, pois a construção nunca termina. O campo ainda não está pronto para receber todas. Mas elas estão lá, abrindo espaço para quem vem depois.