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"Coloquem pessoas que saibam realmente de esporte para falar de futebol."

Giovanna conta uma história que aconteceu quando ela e um colega homem fizeram um vídeo juntos — descontraído, leve, explicando como tirar a carteirinha do centro esportivo. Em determinado momento, para ilustrar quais esportes o centro oferecia, ela chutou uma bola e o colega foi o goleiro.

 

Nos comentários, uma resposta chamou a sua atenção: "Coloquem pessoas que saibam realmente de esporte para falar de futebol."

 

Ela não sabe com certeza se o comentário era direcionado a ela por ser mulher. Mas sabe que tinha um fundo disso. E sabe também — porque já internalizou — que essa é a dinâmica:

 

"Sempre que uma mulher quer falar sobre esporte em redes sociais, mesmo antes de alguém duvidar dela, ela já pensa em como fazer para reverter isso. A gente já tem esse pré-pensamento."

 

 

A cobertura da final da SuperLiga de vôlei entre Bauru e Osasco foi uma das experiências mais marcantes para Giovanna — e não foi pelo jogo.

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Foto: Acervo pessoal 

Giovanna chegou cedo, ficou em pé na primeira fileira do setor de imprensa, observando a quadra. Estava com outra estagiária mulher. Em determinado momento, um homem mais velho, com a camisa do Osasco, chegou gritando com as duas. Exigiu que sentassem. Disse que estava ali para trabalhar. Não perguntou nada, não explicou nada. Apenas gritou.

 

"Eu não tinha falado nada para ele. Ele só chegou gritando. " Ela estava no setor de imprensa. Tinha credencial. Também estava ali para trabalhar. Em volta, outros jornalistas observavam. Ninguém interveio. Foi um funcionário da federação quem apaziguou a situação — repudiou a atitude do homem, pediu que Giovanna se sentasse, ouviu que ela não sabia que não podia ficar em pé e encerrou o episódio.

 

Mas o episódio não encerrou assim para ela. "Sou uma pessoa emotiva e depois disso eu chorei. Não estava esperando por isso e desabei."

 

A pergunta que ficou é simples: ele teria gritado com um homem? "Acho que ele não gritaria com outra pessoa se fosse homem."

"O maior desafio é ter seu trabalho e suas opiniões questionadas o tempo todo de uma forma muito silenciosa." , afirma Gabriela Lira

O adjetivo é preciso. A violência simbólica descrita por Pierre Bourdieu opera exatamente assim: sem barulho, sem denúncia possível, sem um agressor identificável. É o olhar duvidoso na reunião de pauta. É a ideia que não foi levada adiante. É a final da qual ela foi excluída para que três homens fossem contratados em seu lugar.

 

"Eu já fui muito descredibilizada, já fui excluída de uma final para contratarem três homens no meu lugar." A pesquisadora Dimalice Nunes, em sua pesquisa sobre a precarização do trabalho jornalístico sob a perspectiva de gênero, aponta que as mulheres são as primeiras a serem demitidas e as últimas a serem contratadas.

 

O relato de Gabriela não é exceção — é ilustração de uma regra estrutural que opera cotidianamente, nos bastidores dos grandes eventos, nas salas de reunião, nas listas de credenciados. Há uma narrativa comum sobre mulheres no jornalismo esportivo e redes sociais: a da profissional blindada, que lê os comentários e sorri, que transforma o ódio em combustível.

 

Gabriela Lira não se encaixa nessa narrativa — e, de forma corajosa e honesta, deixa isso muito claro. "Eu não sei lidar. Eu me afeto com todas as críticas e bloqueio quem eu vejo falando mal, desrespeitando."

 

A resposta é dada sem cerimônia, sem o verniz da superação performática. Se a afetou, ela bloqueia. E isso, longe de ser fraqueza, é uma forma de autocuidado que muitas vezes não aparece nos bastidores das histórias de sucesso. A pesquisa da organização Journalists Against Violence Against Women, realizada em 2021, revelou que 73% das jornalistas entrevistadas já sofreram algum tipo de violência online no exercício da profissão.

 

As redes sociais, como analisa a pesquisadora Raquel Recuero, funcionam como amplificadoras de discursos — e o ódio direcionado a mulheres no esporte encontra nelas um megafone fértil.

 

O homem que gritou com Giovanna na arquibancada e o comentário anônimo que questionou se ela entendia de futebol e a vaga que Gabriela perdeu para três homens, os comentários que ela recebe frequentemente — são episódios diferentes, formas diferentes, mas têm a mesma raiz.

 

E enquanto essa raiz não for arrancada, cada mulher que entrar nesse espaço vai precisar, antes de qualquer coisa, aprender a existir dentro dele.

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