"Eu me inseri no jornalismo esportivo na marra", afirma Gabriela Lira

Gabriela Lira é jornalista esportiva e, hoje, host da Kings League Brasil, liga criada por Gerard Piqué que conecta futebol e cultura digital e se tornou fenômeno entre o público jovem.
Sua trajetória no jornalismo não seguiu um caminho tradicional. Ainda na faculdade, começou a escrever de forma independente. Foi assim, na prática e com iniciativa própria, que deu os primeiros passos na área.
Ao longo dos anos, construiu uma carreira passando por instituições como a Federação Paulista de Futebol, Conmebol, Play9 e FIFA, onde participou da cobertura da Copa do Mundo Feminina de 2023. Também esteve envolvida em projetos como as Olimpíadas de Paris 2024.
Sem atalhos e em um ambiente majoritariamente masculino, Gabriela resume sua trajetória de forma direta:
“Eu me inseri no jornalismo esportivo na marra.”
Foto: Acervo pessoal
Trajetória

Copa do mundo 2022
Gabriela Lira, em publicação no LinkedIn
"Durante todo o mês da competição, vivi um dos momentos mais incríveis da minha trajetória profissional, ao trocar o papel de social media para PRODUTORA no maior evento esportivo do planeta. Foram dias intensos, dentro de um caminhão de transmissão, garantindo entradas ao vivo do Catar na CazéTV. Ainda assim, a Copa de 2022 segue no top 3 da minha carreira."


Jogos Olímpicos
#ParisÉBrasa
Gabriela Lira, em publicação no LinkedIn
“A abertura das Olimpíadas de Paris acontece hoje, e é minha primeira cobertura dos Jogos com o time de redes da Play9, aqui do Rio."
Gabriela Lira, em publicação no LinkedIn
“Nesse final de semana chegou ao fim o #ParisÉBrasa, projeto da Play9 com o COB, com cobertura olímpica direto de Paris. Atingimos 1 bilhão de views, com diversos conteúdos produzidos ao longo dos jogos. Encerramos essa jornada com a sensação de dever cumprido.”
"Já fui excluída de uma final para contratarem três homens no meu lugar."
Para muitas jornalistas esportivas, o obstáculo mais difícil não é o assédio explícito, mas uma desvalorização constante e quase invisível.
Como relata Gabriela Lira, esse processo acontece de forma silenciosa: está nos olhares de desconfiança em reuniões, nas ideias que não são levadas adiante e nas oportunidades que simplesmente deixam de aparecer.
“Eu já fui muito descredibilizada”, afirma. Em um dos episódios mais marcantes, ela conta ter sido retirada da cobertura de uma final para que três homens fossem contratados em seu lugar, um exemplo claro de como essa dinâmica opera na prática. Esse tipo de experiência não é isolado.
Pesquisas mostram que, no jornalismo esportivo, mulheres ainda enfrentam mais dificuldade para serem contratadas e têm maior vulnerabilidade no mercado de trabalho.
Assim, o que parece sutil no dia a dia revela, na verdade, uma estrutura desigual, que questiona, limita e silencia a presença feminina no esporte.
“Uma mulher preta sofre ainda mais nesse ambiente.”
Ao falar sobre interseccionalidade, Gabriela Lira evidencia uma camada ainda mais profunda das desigualdades no jornalismo esportivo.
Em um espaço já marcado pela predominância masculina, mulheres enfrentam barreiras constantes, mas, para mulheres negras, esses desafios se intensificam. “O preconceito racial existe muito”, afirma, ao destacar que a experiência de uma mulher preta nesse meio é atravessada por mais obstáculos e menos oportunidades.
Ela chama atenção também para a baixa representatividade, são poucas as mulheres negras inseridas no futebol e no jornalismo esportivo. Isso faz com que a luta por igualdade de gênero, que já avança lentamente, se torne ainda mais difícil quando somada à questão racial.
Os dados reforçam esse cenário. Embora mulheres sejam maioria na profissão, ainda ocupam uma parcela mínima dos cargos de liderança. No jornalismo esportivo, essa desigualdade é ainda mais evidente e, entre mulheres negras, o espaço é mais restrito. O relato de Gabriela não aponta exceções, mas revela uma estrutura que continua limitando quem pode ocupar e permanecer nesses lugares.